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A exposição da fé

Comecei a ler um livro chamado Contra as Heresias, escrito por Ireneu de Lião. Ireneu, que foi bispo de Lião no final do século II, foi discíuplo de Policarpo de Esmirna, que foi discípulo de João, apóstolo do nosso Senhor. Esta sua obra, tida como uma das maiores obras da literatura cristã de todos os tempos, expõe toda a doutrina dos gnósticos da época e apresenta a refutação de tais doutrinas com base na razão e nas Escrituras. No entanto, também apresenta lindos discursos sobre a verdadeira fé cristã, sua doutrina e sua tradição.

É justamente um desses discursos que quero reproduzir aqui. Esta é uma obra de grande valor, e com certeza não existiriam tantas infelizes divisões na Igreja de hoje se todos os ministros da Palavra a lessem, dada a grande quantidade de esclarecimentos contida nela.

Segue o texto que desejo reproduzir. É a seção 10,3 do livro I (Contra as Heresias é, na verdade, uma compilação de cinco livros escritos por Ireneu):

A exposição [das Escrituras] feita com sabedoria maior ou menor, não quer dizer que se muda a doutrina ou que se pense noutro Deus além daquele que é o Criador, Autor e Nutrício deste universo, como se ele não bastasse, ou noutro Cristo, ou noutro Filho único. Trata-se simplesmente: de indicar a maneira com que cada um procura explicar a doutrina contida nas parábolas, mostrando a sua concordância com a doutrina da verdade e de expor a maneira com que se realizou o desígnio salvífico de Deus; de mostrar que Deus usou de longanimidade, quer diante da apostasia dos anjos, quer diante da desobediência dos homens; de dar a conhecer por que o mesmo e único Deus fez algumas coisas temporais e outras eternas, por que fez os seres celestes e terrestres. A razão pela qual, sendo invisível, se manifestou aos profetas, não de uma só forma, mas de diversas; de indicar por que fez várias Alianças com a humanidade e as características de cada uma; “por que Deus incluiu todos na incredulidade para ter misericórdia de todos” [Romanos 11:32]; trata-se de publicar numa ação de graças que o Verbo de Deus se fez homem e sofreu e anunciar que a vinda do Filho de Deus se deu nos últimos tempos e não no início; de mostrar o que está nas Escrituras a respeito do fim e das realidades futuras e de não calar que Deus fez das “nações que não tinha esperança, co-herdeiras, concorporais e co-participantes dos santos” [Efésios 3:6]; de proclamar que “esta carne mortal se revestirá de imortalidade e esta carne corruptível, de incorruptibilidade” [1 Coríntios 15:54]; de proclamar como “este que não era povo se tornou povo, e a que não era amada se tornou amada” [Oséias 2:23; Romanos 9:25]; e como “os filhos da que era estéril se tornaram mais numerosos que os da casada” [Isaías 54:1; Gálatas 4:27]. É em casos como estes e semelhantes que o Apóstolo exclama: “Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são imperscrutáveis seus juízos e impenetráveis os seus caminhos!” [Romanos 11:33].

(Referências bíblicas acrescentadas segundo a indicação das notas de rodapé do livro.)